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Sergeant Pepper’s

Luis Fernando Verissimo

O cara era novo na mesa. Não falava muito, e os outros foram sabendo da sua biografia aos poucos. Na primeira noite, contou que tinha morado em Londres. Não entrou em detalhes. “Foi há muito tempo”, disse.

Dias depois, contou:

- Eu estou na capa do Sergeant Pepper`s.

- O quê?

- Do disco. Sergeant Pepper`s Lonely Hearts Club Band. Beatles.

Os outros se entreolharam. Nem todos se lembravam da capa do disco.

Os que se lembravam sabiam que na capa do disco apareciam os quatro Beatles e mais uma porção de gente no fundo. Como ele fora parar na capa de um disco dos Beatles?

Ele só sorriu e disse:

- Era um tempo muito maluco...

Na ausência dele, a mesa se dividiu. Uns diziam que ele era um grande mentiroso. Outros achavam que ele podia estar dizendo a verdade. Porque não?

Alguém se lembrou que tinha o disco em casa. O long-play original, de vinil. Com a capa grande. Trouxe para o bar. Fizeram um minucioso exame das caras que apareciam na capa. Não conseguiram identificar todas. O Fred Astaire. O Bob Dylan. A Marilyn Monroe. Aquele era o Karl Max ou o Moisés? O Gordo e o Magro. O Marlon Brando. O Albert Einstein...

Olha o Tony Curtis!

Entre os não identificados, tinha um que podia ou não ser o cara.

- Claro que não é. Esse é o... é o...

- Pode ser ele.

- De jeito nenhum!

- Não esquece que isso foi há quarenta anos. Que idade ele teria então?

- Nós não sabemos que idade ele tem agora.

- Sei não. Pode ser ele...

Decidiram pedir mais informações ao cara. Da próxima vez que ele aparecesse na mesa, perguntariam o que ele fazia em Londres.

Ele foi vago:

- De tudo.

Não adiantou insistirem. Ele apenas sorria e não contava nada. Fora há muito tempo, muito tempo. Não se lembrava da metade.

Mas na capa do Sergeant Pepper`s só tem gente conhecida.

- Gente famosa. Você era famoso porquê?

O cara hesitou. Não queria parecer prosa.

- Bom, famoso eu não era. Mas era conhecido.

- Por quê?

- Por ter sido casado com a Elizabeth Taylor.

E, diante da reação da mesa, se apressa a esclarecer:

- Mas só por quinze minutos.

A conclusão foi unânime, o cara era um grande mentiroso. Quase unânime. Um ainda perguntou: “Por que não?”.

Afinal, aquele tinha sido um tempo muito maluco.

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SEM COMENTÁRIOS

Caso passional. O namoro ainda estava no começo quando ela contou que tinha um nome carinhoso para o seu órgão genital. “Quequequinha”. Ele achou graça e disse que também tinha um apelido para o seu órgão genital. “Haroldão”. Depois o namoro ficou mais sério, ela descobriu que o superlativo não se justificava e brincou dizendo que ia se queixar da propaganda enganosa ao Procon. Paft, poft, para ela aprender que com certas coisas não se brinca, e taí: casou com olho roxo. A vingança veio na forma de um fuzileiro naval chamado Dionísio que era tudo que o nome prometia e com que ela enganou o marido até o dia em que inventou de fazer uma crítica ao seu poder de recuperação e dizer que ele era uma vergonha para a corporação. Paft, poft e fim de caso com o Dionísio. Depois foi o dono de uma vulcanizadora que, no meio do caso, ela inventou de dizer que se parecia com o Agnaldo Timóteo. Paft, poft, fim. Hoje está tendo um caso com um funcionário público que tem o hábito de fungar ruidosamente na hora do orgasmo e que ela tem se controlado pra não criticar porque ouve a “Quequequinha”, que perdeu a paciência com ela, dizendo “Sem comentários! Sem comentários!”.


Domingo, 6 de agosto de 2006.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.